Uma demonstração real da ilusão da sombra no tabuleiro de xadrez

A “ilusão” da sombra no tabuleiro de xadrez, criada por Edward Adelson em 1995, é talvez uma das mais famosas demonstrações dos princípios perceptivos subjacentes à percepção da cor. Nesta ilusão (ver Figura 1, imagem da esquerda), os dois quadrados assinalados com as letras A e B têm exactamente o mesmo tom de cinzento, apesar de o segundo parecer mais claro que o primeiro (ver Figura 1, imagem da direita).

Figura 1

Ilusão da Sombra no Tabuleiro de Xadrez

À semelhança do que acontece com muitas outras “ilusões” (e daí o meu uso das aspas nesta palavra), o que se diz ser igual – a cor dos quadrados A e B – esconde uma ambiguidade que importa clarificar, para que seja compreendida a natureza da demonstração. A tonalidade dos quadrados na imagem (ou, o que é aqui equivalente, da luz que nos chega à retina vinda dessas duas regiões) é, de facto, exactamente igual. Acontece que a nossa percepção não evoluiu somente para detectar a quantidade de luz, em termos absolutos, que nos chega à retina – essa é, sim, a informação inicial de base, mas ainda não o propósito final da percepção. Esta última visa, em última instância, extrair informação acerca dos objectos externos, isto é, e neste caso, a quantidade de luz que é reflectida pelas suas superfícies (a reflectância). Naturalmente, a luz que nos chega aos olhos (a luminância) depende não só da reflectância dos objectos (proporção de fotões reflectidos pelas suas superfícies) mas também da quantidade de luz que os ilumina (a iluminância). Um objecto que reflicta 50% da luz que sobre ele incide (percebido como um cinzento neutro), irá reflectir uma maior ou menor quantidade de luz consoante a seja iluminado por uma fonte de luz mais ou menos intensa. Num mundo em que a iluminação varia consideravelmente, entre zonas expostas à luz directa e zonas sob sombras, ou cenas iluminadas pelo sol do meio-dia, ou por um sol nascente ou poente, ou por uma lua mais ou menos cheia, a capacidade perceptiva de inferir propriedades dos objectos em si mesmos, independentemente da luz que nos chega à retina (que pode ser maior ou menor, para um mesmo objecto, consoante esteja sob maior ou menor iluminação), é crítica para a sobrevivência. Caso contrário, os objectos aparentar-nos-iam mudar drasticamente de cores se se mudasse a iluminação, ou se se movessem por debaixo de uma sombra.

No caso da “ilusão” de Adelson, para que a luz que nos chega à retina vinda da zona B seja igual aquela da zona A (iluminância), a superfície de B deve reflectir mais luz que a de A (reflectâncias), pois o primeiro está à sombra e, portanto, sujeito a uma menor iluminação. Esta inferência, feita automaticamente pela nossa percepção, dificilmente pode ser designada de ilusória. A afirmação de que “a cor dos quadrados A e B é igual” aplica-se, sim, às cores na imagem (luminância), mas a nossa percepção evoluiu para extrair informação acerca da cor das superfícies no mundo (reflectância). Por tudo o que foi dito, é, em princípio, impossível recriar com objectos e sombras reais a “ilusão” da sombra no tabuleiro de xadrez – ou, melhor, é impossível de recriar sem recurso a truques.

A figura 2 possui todos os elementos necessários para uma versão “ao vivo” da ilusão da sombra no tabuleiro de xadrez. Esta pode ser impressa numa folha grossa, tipo cartolina (tamanho A3), e recortados os diferentes elementos. O rectângulo verde pode ser enrolado, colando o extremo esquerdo na aba branca no extremo direito, para criar um cilindro. Este último pode, depois, ser colocado por cima do círculo negro no tabuleiro de xadrez.

Figura 2

Elementos para a demonstração

Na superfície do tabuleiro está impressa uma sombra falsa, o truque que torna possível recriar a “ilusão”. Finalmente, os quadrados e o rectângulo do lado direito possuem a mesma tonalidade de cinzento que os quadrados claros no interior da sombra falsa e que os quadrados escuros no exterior dessa mesma sombra. Uma forma eficaz para tornar convincente a demonstração consiste em dispor os elementos sob um candeeiro, de forma a projectar uma sombra verdadeira sobre a sombra falsa (quanto mais as duas se alinharem, melhor), conforme mostrado na fotografia na figura 3. Com esta disposição, podem-se mover os quadrados soltos, livremente, entre as zonas no tabuleiro, mostrando que esse possui a mesma cor que os quadrados claros debaixo da sombra e que os quadrados escuros fora da sombra (ver figura 4). Note-se que as variações de luminância geradas pela sombra real são, naturalmente, descontadas pela nossa percepção, restando apenas o efeito provocado pela sombra falsa (conquanto disfarçada pela sombra real). Finalmente, o rectângulo cinzento pode ser disposto no tabuleiro para ligar as mesmas zonas entre si, mostrando que a sua cor é idêntica.

Figura 3

Configuração para a demonstração

Figura 4

Demonstração real da ilusão da sombra no tabuleiro de xadrez

Esta demonstração, que pode facilmente ser feita em sala de aulas, facilita a compreensão não só da “ilusão”, mas também da natureza dos processos perceptivos envolvidos. Ainda que disfarçar a sombra falsa com uma verdadeira seja crítico para a “ilusão” funcionar, torná-la evidente (desligando o candeeiro, removendo o cilindro, ou mudando a orientação de toda a configuração) é importante para explicar e compreender não só a razão para a “ilusão” mas também as inferências perceptivas nessa envolvidas.

Bibliografia

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