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Uma demonstração interactiva da Ilusão de Müller-Lyer

A Ilusão de Müller-Lyer (ver Figura 1) é uma das mais populares ilusões óptico-geométricas. Nesta ilusão, um dos segmentos de recta (linha B) aparenta ser maior que um outro (linha A), apesar de ambos terem exactamente o mesmo comprimento. A percepção do comprimento das linhas, comummente precisa, é aqui afectada pelas pequenas linhas oblíquas (contexto) que marcam os extremos dos segmentos de recta – estas últimas parecem mais ou menos compridas consoante estejam contidas entre elementos convexos ou côncavos, respectivamente. À semelhança de outras ilusões óptico-geométricas, também esta evidencia que a percepção funciona de forma contextual, em que propriedades de objectos distais são estimadas de forma relativa face ao contexto em que se encontram inseridas.

Ilusão de Müller-Lyer – a linha B tem o mesmo comprimento que a linha A, apesar de parecer ser maior
Figura 1. Ilusão de Müller-Lyer – a linha B tem o mesmo comprimento que a linha A, apesar de parecer ser maior.

Apesar de amplamente estudada, ainda não existe uma explicação teórica inteiramente consensual para esta ilusão, pese embora a popularidade da proposta de Richard Gregory (1997). De acordo com este autor, a Ilusão de Müller-Lyer pode dever-se ao facto de que, no mundo tridimensional e devido às leis da perspectiva, ângulos côncavos/convexos são mais prevalentes em objectos rectilíneos mais próximos/distantes do observador. Esta estatística natural é particularmente evidente em construções arquitectónicas (ocidentais) e é ilustrada na Figura 2 – nesta, as duas linhas verticais assinaladas com A e B possuem o mesmo comprimento, no próprio desenho, mas correspondem a alturas que, no mundo tridimensional implicado pela perspectiva, seriam necessariamente distintas (a altura de B maior que a de A).

Desenho ilustrativo da explicação de Gregory – as linhas A e B, com o mesmo comprimento no desenho, implicam diferentes alturas quando interpretadas como elementos de um espaço tridimensional
Figura 2. Desenho ilustrativo da explicação de Gregory – as linhas A e B, com o mesmo comprimento no desenho, implicam diferentes alturas quando interpretadas como elementos de um espaço tridimensional.

Ainda que algumas evidências mais recentes tendam a suportar, no essencial, a explicação de Gregory (ver, por exemplo, Howe & Purves, 2005), importa notar que essa é menos convincente para outras versões menos conhecidas da Ilusão de Müller-Lyer, como aquelas mostradas na Figura 3 (para detalhes ver Robinson, 1972). Pode-se verificar que a ilusão ocorre para outros contextos côncavos/convexos que não linhas oblíquas (e.g., círculos e quadrados), ocorre mesmo para a percepção do comprimento de espaços vazios ou apenas com configurações de pontos, e permanece mesmo quando os elementos são explicitamente representados em perspectiva, presumivelmente dispensando inferências acerca da sua configuração tridimensional.

Ilustração de várias versões da Ilusão de Müller-Lyer
Figura 3. Ilustração de várias versões da Ilusão de Müller-Lyer.

Seja como for, e independentemente das explicações para o fenómeno, a Ilusão de Müller-Lyer tem inegavelmente um papel em aulas sobre percepção, seja para ilustrar a sua natureza contextual, enquanto exemplo das relações entre distância e tamanho percebidos, ou mesmo como estímulo para o ensino de métodos psicofísicos. Neste sentido, pode ser pedagogicamente útil dipôr de uma demonstração interactiva da ilusão que possa ser activamente explorada, o que não seria possível se apenas fosse mostrada num diapositivo de uma aula.

As fotografias na Figura 4 mostram uma possível demonstração interactiva, implementando o Método do Ajuste, da Ilusão de Müller-Lyer que pode ser usada para uma qualquer aula, como parte de um trabalho prático, ou apenas como uma demonstração física desta famosa ilusão.

Fotografias ilustrativas da demonstração interactiva da Ilusão de Müller-Lyer
Figura 4. Fotografias ilustrativas da demonstração interactiva da Ilusão de Müller-Lyer.

Para construir esta demonstração, basta descarregar e imprimir o ficheiro seguinte (formato PDF; cada uma das duas páginas deve ser impressa em folhas separadas):

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A demonstração será mais sólida e eficaz se impressa em folhas ligeiramente mais grossas (mas não demasiado; e.g., cartolina). Uma vez impressas, deve-se cortar pelas linhas contínuas e dobrar nas linhas tracejadas. O elemento da primeira página, com o segmento de recta B, deve ser colado sobre si mesmo; já o da segunda folha, com o segmento de recta A, deve ser colado na zona sinalizada com um desenho de um tubo de cola, de forma a manter uma abertura onde se possa introduzir o elemento com o segmento B.

Pode-se agora ajustar o comprimento do segmento B para igualar perceptivamente o comprimento do segmento A, empurrando-o mais ou menos para dentro – na parte de trás dispõe-se de uma pequena escala, impressa, que indica o erro em centímetros: números negativos/positivos indicam que o segmento B foi ajustado para um comprimento menor/maior que o segmento A. Para uma melhor estimativa da magnitude da ilusão, pode-se fazer a média dos erros de vários ajustes (no meu caso, o erro médio ronda -2,3 cm, indicando que o segmento B deveria ser 2,3 cm mais curto para me parecer igual ao comprimento do segmento A). Pode-se ainda variar as instruções para testar o efeito das 'atitudes de resposta' – e.g., ajuste o comprimento do segmento B de forma a parecer, de uma forma holística, tão comprido quanto o segmento A ou ajuste o comprimento do segmento B de forma a que seja igual ao do segmento A, ignorando as pequenas linhas oblíquas e centrando-se somente nos segmentos propriamente ditos (cf., Bates, 1923; Gardner & Long, 1961; Predebon, 2004).

Para reproduzir a versão convencional da ilusão, basta ajustar o comprimento do segmento B de forma a que a escala atrás indique 0 – neste valor, os dois segmentos (A e B) possuem exactamente o mesmo comprimento.

Bibliografia

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